segunda-feira, 22 de abril de 2013

Textinho sem título


Acredito que cada relacionamento meu (ou de todos nós) é um barquinho navegando. E acredito mais ainda que essa teoria é de quinta, mas vamos voltar aos barquinhos. Sabe, nunca entrei num barco de verdade, mas já enfrentei tempestades absurdas, quase afoguei. Imagina comigo, por favor. Duas pessoas dentro dum barco, trocando sorrisos, confissões, aproveitando o vento gostoso que bate no corpo inteiro, o mar tranquilo, o barquinho sendo levado pela correnteza de forma mansa. Mas então o vento muda a direção, as ondas crescem, o barco começa a perder a estabilidade. Eis que chega a tempestade. Você não para de remar, tenta expulsar o mundaréu de água que entra e carrega o barco pro fundo. Mesmo exausto você não para, precisa salvar o barquinho, foi tão difícil construí-lo. Precisa salvar vocês. Volto a dizer que cada relacionamento nosso é um barquinho navegando. Sou do tipo de gente boba que acredita nas pessoas. Então eu tento, quatrocentos e noventa e nove vezes seguidas se preciso for. Tapo os buracos do barquinho, remo, remo, remo, remo.

Eu tenho necessidade disso, sabe? Preciso me esgotar inteira e ter certeza de que fiz tudo que pude. E, mesmo assim, vi as pessoas pulando do barco como se todo o meu esforço não soasse feito um grito de "ei, fica aqui, eu tô fazendo isso por nós dois". Ah, como foi triste. Fiz das tripas coração, como diria a minha avó, pra manter essas pessoas comigo. Eu não queria deixar que elas fossem embora. Só aí me dei conta de algo crucial. Enquanto eu me desfazia pra mantê-los, eles me perdiam. Era como se a cada dia, a cada gesto indiferente, a cada braçada que eu dava sozinha, um pouquinho de mim caísse no mar. Eu fui indo embora aos poucos, e mesmo assim quis segurar todo mundo. Eu fui indo embora aos poucos e ninguém nunca percebeu, nunca me impediu, nunca me pediu pra ficar. Eu não me arrependo de ter me esforçado tanto, nem de ter bebido tanta água desse mar. Mas lamento por essas pessoas terem sido tão cegas. Eu teria ficado, era só cuidar de mim.