12.5.15

Porcelana barata

Sinto como se tivesse um amontoado de móveis velhos e empoeirados me impedindo de chegar perto da janela para abri-la e deixar entrar um pouco mais de luz e as palavras correrem livres, pra fora de mim. Talvez eu não saiba mais te escrever com a mesma facilidade de antes. Várias horas se passaram desde que abri essa página, perdoe a minha falta de jeito. É que, baby, algumas coisas ficam guardadas tão fundo que chega a doer toda vez que a gente tenta se abrir. Enquanto isso está tocando The Kooks repetidamente e eu sorri lembrando de você dizendo que ia montar uma banda indie com meu nome. Você é despretensiosamente encantador e isso me desarma toda vez, me prende sem direito a dizer não. O que eu posso fazer diante dos teus olhos tão pequenos e tão castanhos fixos em mim? Nada além de embarcar e confiar que o final dessa estrada é num lugar bacana, ou que talvez nem tenha final.

Eu demorei um bocado pra me refazer das vezes que me despedaçaram por completo. Devo confessar que eu imaginei que recomeçar doía menos, mas dói do mesmo tanto. Um tanto enorme. Porque sempre falta algum caquinho que a gente esqueceu de colar e aí aquele vazio fica latejando por noites a fio. Mas você chegou me trazendo a totalidade outra vez, você trouxe os pedaços que faltavam. Todos eles já estavam em você, como se fossemos um quebra-cabeça de três mil peças, num encaixe exato. E, sabe, talvez por isso eu sinta esse medo absurdo. Sinto como se a qualquer movimento seu, eu pudesse cair e despedaçar tudo de novo, tão fácil quanto uma porcelana dessas bem baratas. Você me entende? Cada movimento seu me atinge, me fere ou me acalenta, me bagunça ou me põe no eixo. Eu queria que você me pegasse no colo todas vezes que esses medos me invadem, porque é duro ter que atravessar algumas noites sozinha. 

Fico imaginando que a qualquer momento você pode levantar e sair pela mesma porta que entrou, levando consigo os teus pedaços que até ontem eram tão nossos. Percebe? A cada despedida eu fico menor. Uma parte de mim permanecerá contigo, porque, olha, eu sou tão tua! Se eu pudesse te pedir alguma coisa, ia te pedir pra ficar. Ficar e me cuidar. Ia parecer muito egoísta? É que esses medos ferem, preciso saber que você vai estar comigo. Toda dor se dissolve quando eu sinto que você me ama. Por vezes te sinto longe, talvez você me sinta também, mas ainda assim acredito em cada carinho, em cada suspiro, em cada gargalhada tua que se confunde com a minha, em cada toque. Dizem que o amor é parecido com estar a beira de um penhasco. Não quero sentir medo, quero saber que você vai me segurar se eu resolver fechar os olhos e pular daqui de cima.