quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Sobre as asas que você me deu

No dia em que ocê foi embora eu fiquei 
sozinho no mundo sem ter ninguém, 
o último homem no dia em que o sol morreu.
(O último pôr do sol - Lenine)



Me devastou por dentro te ver partir. Num dia você estava ali me ajudando a escolher as xícaras que enfeitariam a mesa da nossa cozinha e, no outro, você nem ao menos quis sentar no sofá da sala pra me explicar o que te fez arrumar as malas. Eu esperneei, fiz birra, bico, tive crise de choro, te odiei, te amei de novo, gritei, pedi, barganhei com Deus na tentativa de te ver cruzando a minha porta outra vez, mas agora me dizendo que se enganou e que teu lugar sempre foi aqui do lado de dentro. Perdi as contas de quantos dias se passaram e você não faz ideia do frio que fez, da dor que foi.

Tive vontade de arrancar meu dedo pra não ter que encarar a marca da aliança que insistia em me lembrar todos os dias que agora eu não era mais a tua mulher. Quem eu era então? O que sobrava de mim sem você? Mas aí eu te olhei, e então te percebi tão inteiro que eu nem consegui entender como pude um dia ser uma parte de você, não havia espaço ali, não há espaço em você e nem na sua rotina. Você saiu, dançou, bebeu, comeu, beijou, gargalhou, dormiu, trabalhou, estudou, acordou, seguiu sem lembrar que havia me deixado no meio da sala com aquele móveis que nem terminamos de pagar, sem nem olhar pra trás porque você não havia deixado nada lá. 

Já não habito mais ali. Parei no meio dessa estrada, longe da nossa casa e longe de você, sem ter pra onde voltar. Foi doloroso perceber que havia chegado a hora de construir tudo novamente. Todas as coisas já tinham ruído e eu tentando a todo custo me manter abrigada em meio aos destroços, dava até pena de ver. Não sei exatamente como eu comecei, mas lembro que quando dei por mim já havia uma parede erguida e, daqui de onde estou, já não posso te enxergar como antes. Aos poucos você foi se tornando um amontoado de lembranças, um punhado de fotos manchadas, um pedaço mal escrito dessa minha história. Outro dia nós nos vimos, e eu percebi que já nem reconheço teu cheiro. Logo eu, que te conhecia até no escuro. Engraçado quando duas pessoas vão tão fundo uma na outra e, de repente, passam a ser só mais um no meio da multidão, você não acha?

Você me despedaçou e, só então, eu pude recriar minhas asas. Não sei mais voar na sua direção, espero que você tenha se encontrado.